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A prostituição e a esquerda

Por Carina Prates

Quando eu penso isso, me vem um cara muito específico em mente, mas não vou dar muitas dicas porque não quero pessoalizar a questão e sim discutir ideias.

O cara é de esquerda, super marxistão e faz questão que isso seja bastante nítido. Análise social, estruturas…

Mas quando o assunto é prostituição, aí é escolha individual.

“Escolha”, “profissão como qualquer outra”. A tal profissão mais antiga do mundo que, “inexplicavelmente”, não tem o mesmo respeito e prestígio social que outras profissões. Tão como qualquer outra que é um xingamento e a qual suas profissionais são marginalizadas e tratadas como menos que seres humanos. E se é tão ok para algumas feministas e caras de esquerda tão empenhados na causa trans, não deveria ser visto como algo ruim que a maioria de travestis tenham essa como uma das únicas opções de vida. Eu já vi homens falarem que sentiram remorso por terem saído com uma prostituta. Então porque os próprios consumidores desse mercado o vêem como algo sujo, já que é ok? Usar uma pessoa por coerção financeira, explorar sua condição e dizer que está com remorso não adianta merda nenhuma, francamente.

“Escolha”, quando meninas de 10 anos são vendidas por suas famílias nos rincões desse país, por causa da fome e da miséria. Tem cidades inteiras nesse país que de tão pobres que são, o que sustenta o comércio e o turismo local é a prostituição e uma grande parte dessas meninas são menores. “Escolha”, quando tem mulher que faz programa em troca de um prato de comida. “Escolha”, quando existe algo triste e desolador chamado “mulheres-caranguejo”. “Profissão como qualquer outra”, quando tem mulheres que são ameaçadas de (mais) estupro e de morte quando querem sair. “Profissão como qualquer outra” que quem já não era viciada em drogas, passa a usar pra aguentar e conseguir se dissociar de alguma forma.

Então por que só aqui e só em grupos em que é composto majoritariamente por mulheres, história e estrutura social podem ser ignoradas, relativizadas e os caras que se acham os maiores esquerdistas vem falar de escolha num contexto de coerção social? Pode ser marxista e liberal quando se trata de prostituição? É isso e não me avisaram? Pra mim, isso é uma esquerda que não preza por coerência só quando se trata de mulheres. Isso é uma análise de classes falha, primeiro porque a primeira divisão do trabalho que ocorreu na humanidade foi entre os sexos, segundo, porque a grande maioria dessas mulheres entraram justamente por sua classe ser aquela em que está a miséria.

Então não venham nos chamar de moralistas ou putafóbicas quando vocês estão cagando e andando para essas mulheres. Não venham nos chamar de moralistas quando vocês preferem apoiar que se regularize a cafetinagem e sequer cogitam políticas públicas que dêem oportunidades para aquelas que querem sair e não tem escolha.

Eu vejo militantes querendo separar os conceitos de exploração sexual do conceito de prostituição, como se uma coisa fosse dissociável da outra. Quando a maioria dessas mulheres começaram quando meninas, quando muitas delas foram vendidas pela família ou aliciadas por causa da miséria, ou fugiram de casa por causa de abuso, ou para sustentar um vício, quando mulheres são traficadas para sustentar essa “indústria”, inclusive em países a qual a mesma é regulamentada, como que se dissocia uma coisa da outra, já que estão intrinsecamente relacionadas? Andando na Luz uma vez, eu vi uma garota de, no máximo uns 12 anos se prostituindo. Um homem adulto, dentro de um carro, estava “negociando” com ela. Será que ele se sentiu um explorador de menores ou um cara comum contratando o serviço de uma prostituta? Recentemente, um homem nojento de 79 anos foi absolvido porque a menina de 13 anos era prostituta. Então querer dissociar uma coisa da outra não é nada mais que cinismo. Porque umas poucas tiveram condições de vida, mas por alguma razão optaram por isso, nós vamos mesmo fazer análise social pautada em exceção? Esse é o único caso na esquerda que eu vejo exceção pautar debate.

Na abolição da escravidão, quando pessoas negras foram jogadas na rua, sem indenização do governo e, ao contrário dos imigrantes europeus, sem lotes de terra para produzir, tendo a sua mão de obra agora desprezada porque deu-se preferência de assalariar brancos europeus, uma das poucas opções que sobrou para a mulher preta foi se prostituir. Em alguns lugares da região amazônica idem, em lugares que mal há condições mínimas de vida, essas é uma das poucas opções para não morrer de fome. Como vocês ousam ignorar contexto social e falar de livre escolha?

Então podem me chamar de moralista, feminista dogmática, arcaica, eu não ligo: vocês não me enganam. É fácil calar uma mulher que aponta a incoerência do discurso de vocês como moralista e deixar por isso mesmo, para encobrir a falha do discurso de vocês. Nas poucas vezes em que me propus a debater a questão, pautando em argumentos, soltaram a palavrinha mágica para me calar, eu conheço essa tática.

Porém, para quem está desavisada, eu proponho que se reflita se há possibilidade de uma pessoa ser marxista, se pautar em análises materiais, analisar estruturas e concluir que prostituição é questão de livre escolha e ponto. Para as feministas que apóiam esse tipo de argumento, eu peço que avaliem o quanto o discurso da liberdade sexual está sendo usado como backlash contra o próprio movimento feminista.

Eu não me iludo com esse liberalismo infiltrado.