Sem tempo para me voltar contra mulheres

Por Isabel Rosa Wittig.

Eu, mulher negra e pobre não vou entrar em uma guerra contra as mulheres ricas e brancas. Não faz o menor sentido. Eu já tive meu quinhão de violência de gênero nesse mundo e até antes que eu conversasse com outras mulheres a respeito eu considerava que ele havia sido muito grande. Mas na verdade o que é grande é a minha capacidade de identificar quando isso acontece comigo e não naturalizar, não aceitar. Não sei porque eu sempre soube que tinha algo errado e que certas coisas consideradas naturais para as mulheres eram violentas demais pra mim. Antes de conversar com outras mulheres a respeito eu achei que só eu considerava essas coisas violentas, mas por trás de alguns sorrisos, gracejos e com um pouco de insistência e calma você consegue arrancar delas a confissão de que aquilo também lhes é violento. Elas sabem, nós sabemos, o que é ser menos humana e cidadã de segunda classe.
Nós, mulheres, somos enquanto grupo o povo mais miserável do mundo e mesmo aquelas que receberam uma fatia do bolo capitalista (não do patriarcado porque a esse bolo nenhuma de nós tem direito) e branco estão sujeitas a violências que eu, mulher negra e pobre estou sujeita.
Eu, mulher negra e pobre, não vou travar uma guerra contra essas mulheres. Eu tenho mais o que fazer. E o que é esse meu “mais o que fazer”? Eu explico em poucas linhas. Além de ter que lidar com as violências que são universais a todas as mulheres: estupro, aborto clandestino (ainda que em uma clínica particular ele é menos seguro e ainda é vexatório, se não fosse você ouviria sobre isso em rodas de conversa no reveillon do Copacabana Palace), violência doméstica, assédio moral e sexual no trabalho, ser vista intelectualmente como incapaz, ter sua fala invalidada por ser considerada mais emocional, ter seus feitos na carreira e na universidade relacionados a permutas sexuais, ser enfeite social (obrigação de ser bonita), gastar boa parte da sua renda para estar agradável (depilação, intervenções cirúrgicas, produtos de beleza,, roupas e tudo mais) etc Além de ter que lidar com tudo isso eu tenho uma demanda sobre mim para conseguir sobreviver que é enorme.Eu tenho que lidar com terrorismo racial cotidiano, eu tenho que lidar com postos de trabalho subalternizados, eu tenho que lidar com a administração de uma renda que mal cobre meus gastos básicos com saúde, alimentação e educação. Ás vezes eu tenho que escolher estudar ou comer ou estudar ao invés de trabalhar, eu tenho que lidar com o fato da cor da minha pele ser associada a sexualidade sempre disponível, eu tenho que lidar com a violência vinda do homem pobre e preto a serviço do homem branco rico,tenho que recuperar anos de autoestima destruída por conta de ter nascido com um cabelo crespo e um nariz achatado, horas extenuantes de trabalho dentro e fora de casa. O meu dia a dia é uma luta incansável para não sucumbir, para sobreviver e nas horas extras ou depois do primeiro fim de semana após quinto dia útil do mês tentar viver. E eu quero militar politicamente, eu quero ajudar a transformar um mundo em um ambiente menos hostil para todas as mulheres, sendo que não me sobra tempo nem pra dormir e me divertir. Eu tenho que escolher isso também, se vou socializar, ver outras pessoas, espairecer ou se vou tentar descansar o máximo de tempo que eu conseguir. Como vocês podem ver, a minha agenda é cheia. E eu quero viver muito. Ah claro! Não conseguiram minar minha vontade de viver, apesar dos pesares. Então eu preciso escolher contra quem vou apontar minhas armas e eu preciso ser estratégica o máximo possível, se não eu vou terminar como a maioria das mães e donas de casa com problemas na coluna, ler, dores nas pernas por anos de trabalho doméstico não remunerado. E eu não quero isso. Ah eu quero ter um destino diferente das outras mulheres também e quero isso para todas as mulheres da minha geração. Não me sobra tempo para lutar contra mulheres ricas e brancas que simplesmente não representam de fato o poder capitalista, o poder capitalista é masculino.

Se você é uma mulher rica só não está limpando sua própria sujeira porque tem uma outra mulher fazendo isso pra você. O dia que você não tiver o poder aquisitivo pra isso vai ocupar o mesmo lugar que eu e milhares de outras ocupamos agora e que foram os homens que reservaram para nós: o tanque e o fogão. O que dá poder a uma mulher não é o dinheiro, o que dá poder a uma mulher é ela ser conscientizada que pertence a uma classe subalternizada. Da mesma forma que existirem pilulas e contraceptivos não dão automaticamente poder a ninguém de decidir sobre seu próprio útero e vagina. Isso só acontece quando as mulheres aprendem que são donas dos seus úteros e vaginas e aprendem a dizer “não”, aprendem que não devem ceder a chantagem emocional, aprendem que homens foram socializados para fazer jogos psicológicos e forçarem suas vontades guela abaixo das mulheres. O que dá poder de maneira geral a uma mulher é se reconhecer em todas as outras mulheres É entender que a questão das mulheres é a questão principal. Não haverá derrota da classe burguesa sem a derrota da classe masculina. Os homens são a burguesia do mundo, nós todas somos o proletariado. Não venha me citar exceções que representam menos de 1% de metade da população mundial.Você sabe e eu sei, que isso é desonesto e eu não tenho tempo para isso.
Mas sim eu vou falar sobre racismo com essas mulheres, eu vou falar sobre as mulheres pobres, eu vou falar sobre as menos assistidas. Mas não vou declarar guerra a elas. O meu inimigo é outro, o meu inimigo é quem criou e mantém essa estrutura, e eu preciso nomeá-lo: classe masculina. Eu também não tenho tempo de trabalhar com exceções. Eu disse que preciso ser estratégica não disse? E a minha estratégia que pessoalmente tem surtido mais efeito é dialogar ao limite das minhas forças com todas as mulheres. Não significa concordar com todas elas, nem aceitar tudo que elas dizem, significar não comprar o que elas dizem como guerra pessoal. Eu sei que dentro do sistema de coisas que me marginalizam e empurram pra baixo isso é o mínimo 
Ora, ora todas nós sabemos que todo mundo tem aliados políticos dentro da militância. Todo mundo faz acordo e entra em embates também com seus acordados em prol de conseguir avançar na luta. Eu apenas escolhi o aliado que não pode me estuprar com um pênis ou que não vai calar minha boca por eu ter uma vagina. Cada um com suas prioridades né? Enfim, esse texto termina sem dados estatísticos e pesquisa e se vocês sentiram falta de aprofundamento em algum argumento, me desculpem, eu sou uma mulher negra e pobre não tenho tempo.

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